16/04/09

Alma Humana

Para os amigos da Aumumana


Enaltece minh’alma na prece cósmica desvairada.
Face humana denegrida fluindo ébria,
ó doce loucura santificada
ao longo caminho fora da estrada!
A flauta satírica conduz à dança
verde do corpo enraizado na terra
que a chuva vem e rega o que resta;
a chuva vem e traz a verdade que presta.
Verdade pura ingênua que mora no ar.
Ao nosso lado caminhamos com as mentiras do corpo
e comungamos sagrados cogumelos incandescentes
que fervem na mente da alma sacrílega... calma...
... humana... sim! Música para os seres
do meu jardim! Música para as musas
que pranteiam o herói que partiu
e jamais voltará em carne e sangue
restando apenas na memória de uma estátua
de pedra e lágrimas que lamentam a sua derrota.
Fascinação que eleva, viagem que celebra!
Vou morar numa árvore velha e descobrir
o segredo do tempo que me consome,
vou desconstruir um palácio deixando que
o verde do abandono traga a verdadeira vida
por dentro e para que as palavras
deixem de ser apenas adagas que só causam feridas...
curemo-nos, vamos fluir, transgredir,
vamos beijar o deus interior de cada um e
trepar com a lama de onde veio a essência
da vida de nossa carne, de nosso sangue & células,
onde no meio do pasto de nosso peito lamacento
mora nossa alma humana!

Aldeia Velha, 12 de abril de 2009.

foto de Pakkatto, performance da banda Aumumana no Aldeia Rock Festival IX, Aldeia Velha-RJ, 11/04/09.

03/04/09

O Cego

A chuva chega com as nuvens negras
que vomitam seus relâmpagos
e trovões aleatórios.
Dardos de Deus!!!
Um raio corta uma árvore,
um punhal atravessa o meu olho esquerdo.
Não enxergo o seu sorriso, não vejo os seus olhos.
Sou um cego de alma!
Fui o encargo de chumbo para o escravo mais fraco.
Hoje à noite escarrarei na face de lúcifer
e pedirei clemância ao céu!
Mas se o céu não me ouvir,
deitarei no jardim ao lado de meu túmulo,
me cobrirei com as flores secas
que o ornamentam, viverei seu perfume
e darei boa noite à "estrela".

São Gonçalo, 02 de abril de 2001.

Enquanto o Mundo Dorme

Venha doce pequena,
me roube de inopino
um beijo nesta noite maléfica.
Não ligue para o meu coração infecto.
Encaixe o seu delicado corpo
no meu viril abraço
& sejamos por essa noite aquilo
que jamais sonhamos.
Venha doce pequena,
aproveite enquanto omundo dorme.
Roce sua língua em meus poemas
e se entregue aos meus toques profanos.
Se abra na intensidade suprema
de nossos deejos
& sejamos eternos na noite
com nossos delírios mundanos.

São Gonçalo, 09 de junho de 2003.

Do livro Orações Licenciosas.

Sem frases feitas, a boca perfeita e torneada, rubra e entumescida do pecado: devassidão, um lábaro de palavras silenciosas. Um triste palhaço alcoolizado anseia nas trevas íntimas pela delícia onírica de um beijo. Platônico cadáver de desejos! Cômico e parvo assassino! Do amor: ossos, restos moribundos, intrépida carcaça; frases enlevadas ao vento e cantaroladas por trovadores nos sete continentes. Os versos picotam e se calam na escuridão, afundados no musgo de um ventre da plenitude feminina.
São Gonçalo, 2004.
Do livro Orações Licenciosas.