.

.

31/08/2010

Cântico a Um Bardo Tavernista

Para Rodrigo Santos

"Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sangrenta na mão?
Por que brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?"

Álvares de Azevedo
Amigo Bardo, abra tuas asas
de velho corvo
e ponteie na pálidas folhas
de um papel uma outra dimensão.

Dionisíaco saber em orações
desregradas, clamor eterno,
belas maldições e satíricos perjuros,
entoe as canções mais antigas.

E em seu furioso e magistral
cântico, brindemos com a taça
do destino e batamos com os pés
empoeirados na cidade dormitório vazia.

Amigo Bardo, dance teus versos
como flechas de culpido envenenadas
e retumbe com teus cascos fendidos
sobre os túmulos de medíocres,
covardes, hipócritas e descrentes.

Façamos de sua poesia nossa oração,
para conclamarmos a vitória de Pan
numa noite enluarada, no canto escuro
de uma taverna vazia, onde escreves
mais uma vez a sua mística alma para o mundo.

Evoé! 

São Gonçalo, 11 de agosto de 2010.
.

20/08/2010

A Áspide e o Anjo do Martírio (Ou Reverberações Insanas)


Reverberações insanas ecoam
do frágil e cocho pensamento.
O filho desgarrado caminha
e santifica suas maldições,
pactua com a áspide
e não terá o calcanhar picado.
O sonho submerge no leito
em desejos nunca revelados.
É como a aurora de um dia
nublado, e tão natural
como a danação de minha alma
em chamas, tão natural
como o sorriso inconformado
de uma criança e a rama seca
do deserto do meu espírito.
Cantos de celebração vagueiam
em algum espaço vazio
dentro de uma caixa.
As vozes chamam e convidam
para o banquetes dos mendigos.
A áspide serpenteia e deixa
o seu veneno numa taça cristalina
e sorri suas presas para o
anjo triste do martírio.
As reverberações, a insanidade,
chegam ao ápice e o peso
do corpo cede contra o chão imundo
(onde cospem os caminhantes do destino)
e abraça a terra com suas
memórias e cantigas sombrias.
É natural que o veneno daquela taça
corra em minhas veias cortando
a realidade que se desfaz
diante de meus olhos marejados.

É natural, é tão natural...

São Gonçalo, 18 de agosto de 2010.

17/08/2010

Poeta Morto II


Trague de minha língua
meus versos mais pontiagudos.

Beba de meu corpo o resquício
do revés suor amargo do absurdo.

Sou o deleite escarnecido de seu corpo escancarado.
Sou o degustador dionisíaco do vinho que brota
de suas entranhas no clímax fermentado.

Sugue de minha língua
minha poesia morta.

Sinta correr em seu colo
a saliva de minha conduta torta.

Pois já estou morto
e já deixei de ser poeta.

Niterói/Rio, 24 de setembro de 2003.
(No vai-e-vém das Barcas)

08/08/2010

O Ósculo Negro


Porque temer a morte
se é a vida que nos maltrata?
Porque viver afogado em lamúrias?
Em breve, a morte lhe acomodará.

Não temas o toque da dama.
Quem sabe apenas
osculará a tua testa franzida
onde jaz as rugas da incompreensão?

Receba tal gracejo e veja...
veja os túmulos ao horizonte!
São camas dignas de se repousar.
Lá eternamente são plantadas
as sementes demudadas da ignorância.

Sementes algozes e atrozes
que findam a árvore seca que cresce
com os galhos contorcidos de ódio
por renascer após a morte.


video

Poema escrito em 1991.

Gravado por Rodrigo Santos, no Cemitério Maruí em Niterói, em 07/08/2010.