28/02/09

A Dança dos Morto-vivos

Noite adentro, âmago da devassidão.
Corpos nefastos dançam sob a luz pálida.
Já não sentem o sabor do vinho
tomados pela embriaguez entorpecente
de suas almas tristes e indigentes.
Vão de encontro, uns aos outros
e celebram a morte, diva do amanhã.
Calefação do tabaco, hálito de insensatez.
Vulgaridade estremecente da vulgaridade
dos desejos e angústias estampados na eternidade.
Vomitam música num frenesi azul
sob suas peles distas de sol.
A dança se estende como num ritual
há muito tempo não celebrado.
Dançam dois mortos-vivos enamorados.

São Gonçalo, 02 de fevereiro de 2009.

12/02/09

Um vulto vulgar dentre
a multidão que range
o piso do asfalto seco,
que exala um vapor infernal.

A dança dos fracos
e sobreviventes da dor
insurge de algum olhar nefasto
perdido para o caminhante solitário
que ora na noite tristezas
ao vento ululante da saudade.
O vulto avança e rasga
sua angústia no ventre
que o recebe com desejo
dúvidas e medo.
Nada o conforma, nada o
sacia de suas inglórias.
Santifica e amaldiçoa
as horas que trespaçam
o seu insólido ir e vir.
Vulgar, o vulto espera
o dia em que jamais
sentirá a saudade
de ser completo novamente.

São Gonçalo, 09 de fevereiro de 2009 (5 meses)

A Uma Árvore Morta

Ergueu-se sobre o asfalto seco,
ao lado de um rio imundo,
com as copas crispadas
a ofenderem o céu.
A passarada a rejeita,
os insetos, dela, já não se nutrem.
Seu tronco áspero cinzento,
tal qual um cadáver embalsamado,
que resvala contra o tempo
atrai os olhares dos poetas
e afugenta a atenção dos passantes.
Ah, ardor que penetra minha alma,
tristeza que rasga e fere o coração.
Frígida, entorpecida, pétrea árvore,
ofereço de meu corpo sem emoção
o meu morno calor e minha alma torta
num abraço heróico, ó compadecida
escultura de natureza mórbida
erguida em riste, com devoção.
À triste e solitária árvore morta,
entrego-me com adoração.
Alcântara, 27 de janeiro de 2008
(Numa nublada tarde de domingo).