26/01/09

A Caixa

Estou preso nessa caixa,
privado da imensidão do céu azul
a ver as paredes suficando e viciando
o ar que me esmaga.
Estou preso nessa caixa,
sem espaço para amar e odiar,
a sentir que estou apodrecendo
na medida em que as horas passam.
Aqui é escuro & frio, mergulhado num áspero vazio
estou preso nessa caixa.
O dia parece não ter fim, a noite me devora sem pedir,
pois estou preso nessa caixa.
Estou preso nessa caixa,
a contemplar o meu "eu" interior,
o meu eterno e cativo sofrer,
a minha índole sem graça.
Estou preso nessa caixa,
a lamentar o meu asco infortúnio,
os meus desígnios pobres e vadios,
a minha história insensata.
Alguém, por favor,
me tire dessa caixa!
São Gonçalo, 28 de junho de 2003.

18/01/09

Desencanto


Noite, miserável, solitária, noite!
Da lágrima ardida sorvida pelo orgulho,
na crepitude de um viver lastimável
onde nas trevas de meus passos eu mergulho.
Ser o cão vadio das esquinas imundas,
vagar a sós e transmutar-me em sombra morta,
perder-me em ilusões em que a mente mergulha,
errar de casa, bater de porta em porta.
Pela noite eu ei de perder-me mortificado
com o ressecado destilado na garganta.
A escuridão recebe os meus pés calejados
na trilha em que minha vil vida desencanta.
Niterói, 17 de agosto de 2003.

Anjos

"Princeps gloriosissime cæléstis milítiæ, sancte Michaël Archángele, defénde nos in praélio advérsus príncipes et potestátes, advérsus mundi rectóres tenebrárum harum, contra spirituália nequitiæ, in cæléstibus. (...)"

Ontem à noite, satanás bateu à minha janela.
Mandei avisá-lo que estava conversando com Miguel arcanjo.
Então, ele resmungou maldições e foi embora.

Rio de Janeiro, 13 de julho de 2003.

02/01/09

Uma Noite na Taverna: Especial de 5 anos!


Quando começamos, em janeiro de 2004, fomos tão desacreditados que nós mesmos desconfiávamos de tamanha ousadia: um evento de artes em São Gonçalo, onde o carro-chefe seria principalmente a poesia. Mas, acima de quaisquer comentários maldosos ou pessimistas, tínhamos fome! Fome pela arte! Fome por sair do ostracismo! E com isso, a casa já estava de portas abertas: o SESC São Gonçalo.
Voltando um pouco na cronologia dos fatos, há de se dizer que aconteceu tudo muito rápido, pode-se até desconfiar de uma pré-destinação.
Conhecemos-nos na boemia, no Bar do Blues, em São Gonçalo, num ótimo e torpe tributo à banda The Doors. Eu distribuía bêbado um zine de poesia, de nome Espinhos, até ser abordado por outro bêbado que se dizia poeta, o bardo Rodrigo Santos (e que poeta; belos versos que passei a muito admirar e respeitar). O destino não parou por aí, apesar desse encontro não passar de um "Você que escreveu isso? Muito bom! Cara, eu estou para lançar o meu livro" e nos perdermos de vista dentre as cantorias e a bebedeira.
Um mês depois eu estava subindo ao palco do SESC São Gonçalo na minha primeira ousadia: apresentar o meu recital Dissolvendo Sombras, acompanhado apenas por um violinista que eu havia conhecido tocando nas ruas do Centro do Rio de Janeiro, André Cipola, e com a performance de três belas e queridas amigas, Carol Alfradique, Natália Alfradique e Vanessa de Oliveira, e com a apresentação do também amigo, o artista plástico Moisés de Oliveira. O SESC gostou do que viu, elogiou, porém esta foi a única e última apresentação.
O interessante, é que o Rodrigo e eu tínhamos amigos em comum, o que por essa bela conscidência me levou há alguns meses depois, à noite de autógrafos do seu livro Máscaras Sobre Rostos Descarnados, na faculdade Universo, em São Gonçalo. A partir daí, nos tornamos grandes amigos. A poesia, assim, uniu dois homens, experimentadores da vida e amantes da arte a confabularem sobre eventos e possibilidades de mostrar os trabalhos ao público. O sonho tornou-se realidade com um telefonema do SESC para o escritório onde eu trabalhava oferecendo um espaço para organizar algum evento de poesia. Não pensei duas vezes, liguei para o bardo e disse que o espaço que queríamos para realizar o tão sonhado evento já existia: o SESC São Gonçalo! Assim surgia em janeiro de 2004 o Uma Noite na Taverna!
Fomos ainda mais longe com nossos propósitos. Já que tínhamos o local e o nome do evento - em homenagem ao poeta Álvares de Azevedo -, porque não abrirmos o evento para outros artistas como nós, que sem espaço na mídia não haviam onde se apresentarem?
Assim, o evento passou a ser não só um evento de poesia e sim um evento multicultural, estendendo os braços às diversas vertentes da arte e a homenagear mensalmente um poeta consagrado ou um movimento literário, no intuito de unir o novo, dos novos artistas que se apresentaram, à arte que, já consagrada, influencia até hoje as novas gerações.
Com isso, o evento do dia 10/01, a ser realizado extraordinariamente num sábado (já que todos aconteceram às sextas-feiras), às 17 horas, será uma grande celebração à luta pela arte em nosso município carente, de não apenas dois poetas que, apesar de muito criticados e discriminados ou elogiados e premiados, determinados outrora desanimados, seguiram em frente; e sim de todos os artistas que por esse evento passaram e que marcaram a geração que fora nomeada pela própria imprensa local de Tavernista. E claro, não poderia deixar de ser a celebração do público sempre presente, que não deixa a luz da arte se apagar.
Tragam os amigos, divulguem a arte, pois a arte é a maior redenção do mesquinho ser humano.
Evoé!