31/12/08

Poema de Ano Novo

Por tanta saudade que ficou para trás,
por tantas coisas não construídas,
pelas tímidas construções
mas tão bem embasadas.
Pelo filho que ainda não veio,
pelas derrotas que me ensinaram
que não se aprende com os acertos da vitória.
Pela mãe que partiu,
pela tia que partiu,
pelos que nasceram e renovam,
pelo sonho que acabou e pelos
novos sonhos que brotam vívidos
do peito rachado que não cansa de insistir.
Pelo casamento.
Pela paixão.
Pelo amor.
Pelo sofrimento contido,
pelos gritos de dor; quantos gritos...
Pelo suspiro de alívio e
pelo bálsamo amigo que sempre surge
no fim de um túnel inacabado.
Tudo há de se repetir e ser renovado.
Uma vida que nasce, outra que perece,
uma outra que se vai.
Um beijo de partida, uma lágrima,
um beijo de chegada, um sorriso,
uma esplêndida gargalhada.
Nada é o fim.
Por que para nós, o fim
são reticências de dúvidas,
são pontes para a estrada
da renovação.
De uma forma ou outra,
o ciclo sempre se renova.
A esperança nasce
e o mundo respira novamente.

São Gonçalo, 31 de dezembro de 2008 (21:02h).

25/12/08

Espinhos

Ah, não me pergunte sobre as rosas.
Nem daquelas de pétalas tal carnes desnudas
que ao toque tênue da brisa desabrocham.
Rosas vermelhas, pálidas e cálidas;
rosas brancas que embelezam os túmulos
transformando lágrimas em murmúrios
velando a face ríspida inválida.

Mas não me pergunte sobre as rosas.
Nem daquelas que despedaçam ao coleio do vento
e que quando nuas não mais desabrocham.
Rosas negras, falsas e sinceras;
rosas que murcham ao grito algoz do tormento
e que dançam nuas ao relento
com as pétalas carnudas expostas.

Ah, não me pergunte sobre as rosas.

Rio de Janeiro, 07 de abril de 2000.

Angustiolândia

Ah, como as vísceras que por ti
são dilatadas com grotesca harmonia.
Não cavaleiro!
Não sou tão louco e pernóstico o quanto pareço.

Sou alguém, sou ninguém,
sou apenas eu.
Quem sabe eu não seria o vento
que requebra na donzela
suas negras madeixas entrelaçadas?

Bem, cavaleiro,
podes até não compreender,
que talvez por mágoa ou revolta
minha insignificante pessoa adorna.

Nos dilúvios de fogo,
corpos que antes mergulhados na paixão
dilaceram a alma alheia
sem dádivas nem compreensão,
com dúvidas do que sente o coração.

Pois é, caveleiro.
Incinere esta ruga em tua testa.
Difícil compreender, não é?
Então galgue tua montaria
e marche para Angustiolândia!

Do Nada Apenas o Nada

Perdido, sofrido, angustiado,
com fome de compreensão
mamo nas tetas do tédio.
Com um colostro amargo
supro a minha dor.

Insana dor,
pérfida, maldita dor!
Dor cálida de minh'alma.
Alma triste e pressionada
de mais nada no nada.

Busco a lógica na loucura.
Loucura de ser,
loucura de viver,
loucura da busca
de buscar o nada.

Dos olhos um lamento,
do espírito uma cicatriz.
Cicatriz de quimeras de fogo.
Do fogo resplandece as trevas,
do grito sobressai o silêncio.
Silêncio do nada..."OM"...

21/12/08

Tédio Xadrês (Ou Ode à Minha Geração)

Mil novecentos e alguma coisa...
Somos o reflexo da geração do tédio xadrês,
embalados, bebês barbudos, em flanela
sob o sol de 40º bebendo cerveja
até a esquina do nunca onde dormem
nossos sonhos tortos distorcidos
numa guitarra Fender canhota.
Somos filhos do medo
de não haver um amanhã,
sem sabermos que a cada momento
o hoje se transforma no depois.
Lágrimas e temas fizeram
de nossa conduta pseudo-rebelde
um ato de omissão!
SOMOS O NÃO!
É...
...nós e nossos ídolos tortos
que berravam anêmicos para a multidão
de descrentes e descontentes...
Jogados nos cantos do submundo
nos encontramos com nós mesmos
em espelhos quebrados
e respingados de sangue.
Niterói, 03 de dezembro de 2002.

Chuva

O tamborilar da chuva enlouquece
minha face inane em plena morbidez,
com um olhar insano ao horizonte que apetece
a dor da vida que embriaga-me de vez.

O belo da chuva: minha angústia de existir.
Faço de sua fórmula plena e natural
o mais fantástico elixir
para curar minha conduta profana e imoral.

Já não sei o que é chuva ou alma,
desse menestrel pálido que voz fala,
que ri e se embriaga com o gosto da amálgama
e no instante seguinte se cala.

A chuva é de tudo o mistério,
das lágrimas do céu infestuoso
e dos relâmpagos que ecoam raios histéricos
ao poeta que vaga inglorioso.



Travessia de barcas Niterói - Rio de Janeiro (Baía de Guanabara chuvosa), 23 de outubro de 2003.

16/12/08

Evento: Poesia no Paço D'Arlequim

Romulo Narducci e Rodrigo Santos falando da Taverna no Paço Imperial

Sábado à tarde, no dia 06/12, fui juntamente com o meu amigo e companheiro de Tavernas, Rodrigo Santos, representar o evento Uma Noite na Taverna no evento organizado pelo poeta Ricardo Sant'Anna Reis, de nome Poesia no Paço D'Arlequim.

Romulo Narducci recita (observado pelo poeta Ricardo Sant'Anna Reis, ao lado)

O evento acontece dentro da livraria Arlequim, que fica anexa ao Paço Imperial, na Praça XV. Foi muito agradável recitar num local histórico, ainda mais cercado por livros e diante de um público um pouco diferente do que nós costumamos nos apresentar. Havia uma platéia mais seleta, onde todos demonstravam um conhecimento mais apurado da literatura, onde também se manifestavam representantes de diversos eventos que acontecem pela cidade do Rio de Janeiro. Só para registro: o nosso amigo, o poeta e artista plástico Wellington de Sousa, esteve com sua esposa no local, como um silencioso espectador (que pena!). Durante nossa apresentação falamos do Uma Noite na Taverna e ao que o evento se propõe e cada um apresentou suas poesias autorais em dois blocos separados. Houve além de nós, perdoem-me por não ter anotado os demais participantes, muita poesia, uma bela homenagem ao poeta Machado de Assis e a participação de uma cantora lírica que mandou muito bem a música Spente le Stelle, da maravilhosa cantora francesa Emma Shaplin.

Os poetas tavernistas na tradicional travessia de barca na Baía de Guanabara

Uma tarde agradável, no centro histórico do Rio, com muita arte e bom papo com os que estavam presentes. Convites surgiram para atravessarmos mais vezes a Baía de Guanabara e aceitamos com muito prazer, é claro!

10/12/08

Uma Noite na Taverna com a poesia de Cacaso


Versos a Uma Puta

Ó, insensata e esguia puta!
Estes versos que vos escrevo
abstenho-me fúlgido da luxúria
no quarto escuro e fétido
em que te invadi com pecaminosa doçura.

Ó, infeliz e mal-amada puta!
Te invadi sem ao menos tocar seus lábios sedentos,
no coito frívolo em que o amor não se disputa,
como dois animais pérfidos lamacentos
mergulhados no vício da carne em amargura.

Neste quarto vil e fúnebre em que recebestes
mais marujos e bêbados infelizes do que poetas,
vivestes a eterna dor de se deitar
sem receber os versos de oferta
que de seus olhos despertariam a ternura.



Do livro Orações Licenciosas, de Romulo Narducci.